Quem não vai a Jesus pelo amor vai pela dor. Será?!

  • 21/01/2026
Quem não vai a Jesus pelo amor vai pela dor. Será?!
Quem não vai a Jesus pelo amor vai pela dor. Será?! (Foto: Reprodução)

A frase é curta, provocativa e amplamente difundida no imaginário cristão. Para alguns, soa como advertência severa; para outros, como constatação pastoral da condição humana. Sua força retórica, entretanto, carrega riscos teológicos quando absolutizada ou mal compreendida.

A tese central é que, embora o sofrimento possa funcionar como gatilho para o despertar espiritual, o amor permanece o fundamento, o critério e o destino da autêntica relação com Deus. Desde já, é necessário afirmar: a frase não deve ser entendida como ameaça divina nem como determinismo espiritual, mas como observação pastoral sobre a realidade de um coração humano que, muitas vezes, só desperta quando confrontado pela dor.

Justiça Divina, vingança e sofrimento

A Escritura é clara ao afirmar que a vingança pertence exclusivamente a Deus:  Não torneis a ninguém mal por mal; [...] não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor (Romanos 12:17–19). A mim pertence a vingança e a retribuição, a seu tempo (Deuteronômio 32:35). A "vingança" divina no Antigo Testamento muitas vezes se refere à restauração da justiça em favor dos oprimidos, não a um desejo de punição.

Esses textos tratam da justiça soberana de Deus, não da explicação de todo sofrimento humano. É fundamental distinguir três categorias frequentemente confundidas:

- Vingança divina — expressão da justiça santa de Deus;

- Disciplina divina — ação pedagógica amorosa (Hebreus 12:6);

- Sofrimento existencial — consequência de um mundo caído, escolhas humanas, injustiças e limitações da condição humana.

Misturar essas categorias leva a uma imagem distorcida de Deus, como se todo sofrimento fosse castigo direto ou instrumento deliberado de coerção espiritual. Paulo esclarece que, embora tudo seja permitido, nem tudo convém, e que a verdadeira liberdade cristã não é autonomia irrestrita, mas domínio próprio e dependência de Cristo (1 Coríntios 6:12). Até mesmo o conhecido texto de Filipenses 4:13 — Tudo posso naquele que me fortalece — fala de contentamento e maturidade espiritual, não de poder irrestrito.

Fundamentação Bíblica da dor como gatilho espiritual

Evidências aparentemente a favor - A Bíblia registra diversos episódios em que a dor antecede um retorno ou encontro transformador com Deus:

- O Filho Pródigo (Lucas 15:11–32): a fome e a humilhação o conduzem à lucidez espiritual — "caindo em si".

- A conversão de Paulo (Atos 9:1–19): uma experiência abrupta, traumática e desestabilizadora precede sua transformação.

- Salmo 119:67: Antes de ser afligido, andava errado; mas agora guardo a tua palavra.

- Hebreus 12:6: a disciplina como expressão de amor paterno.

- Apocalipse 3:19: repreensão e correção como instrumentos de despertar espiritual.

Esses textos enfatizam a ideia de que o sofrimento pode ser redimido pedagogicamente quando iluminado pela graça. Deus, em sua soberania, não usa gatilhos espirituais para nos forçar a estar com Ele, nunca como coerção que anule o arbítrio. Vide:

- Provérbios 3:11-12: Meu filho, não rejeite a disciplina do SENHOR; não desanime quando ele o corrigir. Pois o SENHOR corrige quem ele ama, assim como o pai corrige o filho a quem ele quer bem.

- Hebreus 12:6-7: Pois o Senhor corrige a quem ama, e açoita todo aquele que aceita como filho”. Permitam que Deus eduque vocês, pois ele está fazendo o que qualquer pai amoroso faz com seus filhos. Pois quem já ouviu falar de um filho que nunca foi corrigido pelo seu pai?

- Hebreus 12:11: Nenhuma disciplina parece alegria no momento, mas sim tristeza; depois, porém, produz frutos de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados.

Evidências em tensão: desarmando a tendência de ‘engaiolar’ Deus

Por outro lado, a Escritura também apresenta caminhos claramente fundamentados no amor e na atração graciosa:

- Romanos 2:4: é a bondade de Deus que conduz ao arrependimento.

- 1 João 4:18: o perfeito amor lança fora o medo.

- Nicodemos (João 3): busca espiritual motivada por sede de verdade.

- O chamado dos discípulos (Marcos 1): atração pelo Cristo vivo, não pela dor.

A tensão bíblica revela equilíbrio: a dor pode ser um meio ocasional, mas jamais o princípio normativo da relação com Deus.

Perspectivas teológicas e filosóficas

Agostinho de Hipona em suas "Confissões" descreve sua conversão precedida por profunda inquietação espiritual: Inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti. Para Agostinho, a dor da alma sinaliza um vazio que só Deus pode preencher.

John Wesley, fundador do metodismo, experimentou o que chamou de "coração estranhamente aquecido" durante uma reunião religiosa, mas após anos de busca angustiada. Sua teologia enfatizava tanto a "graça preveniente" (atração amorosa) quanto a convicção de pecado (experiência dolorosa).

Karl Barth, teólogo suíço, enfatizava que o encontro com Deus sempre envolve crise (krisis), uma ruptura com o velho ser que é intrinsecamente dolorosa, mas necessária para a verdadeira fé.

Abraham Joshua Heschel abordava o sofrimento como mistério, não como pedagogia divina: "Deus não é um espectador indiferente. Ele está envolvido na história humana, sofre com a humanidade." A tradição judaica geralmente rejeita a ideia de sofrimento como castigo direto, preferindo vê-lo como parte do mistério da existência humana diante de Deus.

Soren Kierkegaard via a "angústia" como escola da fé: "A angústia é a vertigem da liberdade." Para ele, a consciência da própria finitude e culpa pode conduzir ao "salto da fé".

Perspectivas psiquiátrica, psicológica e sociológica

A busca religiosa motivada exclusivamente por sofrimento pode indicar questões psicopatológicas:

- Pensamento mágico: Em alguns casos, a conversão religiosa pode representar uma solução mágica para problemas psicológicos complexos.

- Fenômenos de conversão em contextos de crise: Psiquiatras observam que conversões religiosas durante períodos de intenso sofrimento podem ser reações adaptativas, proporcionando estrutura e significado onde antes havia caos.

- Risco de relacionamento religioso disfuncional: Quando a fé é fundamentada principalmente no medo da dor, pode desenvolver-se uma relação com o divino baseada em culpa e ansiedade, em vez de segurança e amor.

- Potencial terapêutico: A religiosidade genuína, mesmo iniciada pela dor, pode proporcionar recursos adaptativos como perdão, gratidão e sentido, com benefícios documentados para saúde mental.

William James, em "As Variedades da Experiência Religiosa", distinguiu entre a religião da "alma saudável" (que encontra Deus naturalmente) e a religião da "alma doente" (que precisa de conversão dramática). Para James, ambos os caminhos são válidos e produzem genuína transformação.

- Transformação pós-traumática: Pesquisas contemporâneas mostram que eventos traumáticos podem precipitar reavaliações existenciais que incluem renovação espiritual. No entanto, a relação não é direta - o trauma também pode resultar em perda de fé ou cinismo.

- Teoria do Apego: Pesquisadores como Lee Kirkpatrick sugerem que Deus pode funcionar como figura de apego, procurada especialmente em momentos de sofrimento quando os sistemas de apego humano falham.

Max Weber analisou como a religião oferece "teodicéias" - explicações para o sofrimento. A frase em questão representa uma teodicéia específica que atribui significado pedagógico ao sofrimento.

"Quem não vai a Jesus pelo amor vai pela dor" contém uma intuição pastoral válida, mas perigosa quando absolutizada.

A verdade mais sólida é que Deus não precisa da dor para ser conhecido, mas pode redimi-la quando ela inevitavelmente ocorre. Amor e dor não são polos excludentes, mas experiências que, em um mundo caído, podem se entrelaçar. A jornada espiritual inclui tanto os que chegam atraídos pela beleza do amor divino quanto os que despertam no silêncio imposto pela dor. Contudo, o destino final da fé cristã nunca deve ser o medo, mas a liberdade do amor.

Na cultura contemporânea, o diálogo entre fé e razão continua relevante. No filme, A última sessão de Freud, vemos um confronto entre o ateísmo de Freud e a fé de C.S. Lewis. Este último, em sua obra 'O Problema do Sofrimento', captou a nuance aqui descrita: Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nossas dores: é Seu megafone para despertar um mundo surdo. Essa imagem ecoa nossa reflexão: a dor pode ser megafone, mas o sussurro do amor é a linguagem primeira e última (I Coríntios 13:13).

Aparentemente ambíguos, o amor e a dor não são necessariamente alternativas mutuamente exclusivas, mas processos entrelaçados da experiência humana diante de Deus. O amor divino nem sempre se apresenta como sentimento agradável - pode chegar como amor que corrige, que desafia, que transforma. Da mesma forma, a busca motivada inicialmente pelo alívio da dor pode, com o tempo, transformar-se em relacionamento fundamentado no amor. A jornada espiritual humana é complexa podendo incluir tanto os que vêm atraídos pela beleza do amor divino, quanto os que vêm arrastados pelo peso de sua dor. Como escreveu o apóstolo João: No amor não há medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo (1 João 4:18).

Jesus está voltando! Desperta, tu que dormes e Cristo te iluminará!

 

Fernando Moreira (@prfernandomor) é Pastor, Doutor em Teologia e Mestre em Computação. MBA em Vendas, Marketing e IA. Membro da Academia de Letras. Une o conhecimento técnico, teológico e executivo. Escritor. Palestrante.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Do Self à exploração do ‘Eu’: A renovação da mente

FONTE: http://guiame.com.br/colunistas/fernando-moreira/quem-nao-vai-jesus-pelo-amor-vai-pela-dor-sera.html


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