Mary B. Woodworth-Etter: Uma figura quase ignorada pelo pentecostalismo

  • 27/01/2026
Mary B. Woodworth-Etter: Uma figura quase ignorada pelo pentecostalismo
Mary B. Woodworth-Etter: Uma figura quase ignorada pelo pentecostalismo (Foto: Reprodução)

Mary B. Woodworth-Etter (1844–1924) é uma das personagens mais subestimadas e silenciadas na narrativa clássica do pentecostalismo, embora sua atuação tenha sido fundamental para a formação do imaginário espiritual, litúrgico e experiencial que mais tarde caracterizaria o movimento.

Antes mesmo do avivamento da Rua Azusa (1906), Woodworth-Etter já conduzia campanhas de avivamento de massas, marcadas por fenômenos que se tornariam típicos do pentecostalismo: êxtases, quedas ao solo, curas divinas, profecias, transes espirituais e intensa comoção coletiva. Por isso, muitos historiadores a chamam de “avó do pentecostalismo”, ainda que seu nome raramente apareça nos manuais tradicionais.

Uma mulher à frente de seu tempo

Ordenada no contexto do movimento de santidade (Holiness Movement), Woodworth-Etter rompeu duplos limites: o teológico e o cultural. Pregava em um período no qual mulheres eram amplamente excluídas do púlpito, e o fazia com autoridade espiritual reconhecida até por seus críticos. Suas campanhas atraíam milhares de pessoas e recebiam ampla cobertura da imprensa — muitas vezes hostil, que classificava os cultos como “fanatismo religioso”.

Contribuição decisiva para a espiritualidade pentecostal

Ainda que não falasse em “batismo no Espírito Santo” nos moldes pós-Azusa, sua teologia e prática prepararam o terreno para o pentecostalismo clássico. A centralidade da experiência, a expectativa de manifestações sobrenaturais e a compreensão do corpo como espaço da ação divina já estavam plenamente presentes em seu ministério.

Figuras como William J. Seymour e outros líderes pentecostais iniciais herdaram — direta ou indiretamente — esse léxico espiritual e performativo que Woodworth-Etter ajudou a consolidar.

Por que foi quase ignorada?

Há pelo menos três razões principais:

1. Gênero: a historiografia pentecostal foi escrita majoritariamente por homens, em contextos cada vez mais institucionalizados.

2. Origem Holiness: muitos pentecostais preferiram traçar uma linha “pura” a partir de Azusa, minimizando influências anteriores.

3. Fenomenologia incômoda: suas manifestações corporais extremas causavam desconforto teológico posterior.

Uma recuperação necessária

Resgatar Mary B. Woodworth-Etter não é apenas um ato de justiça histórica, mas também um convite à autocrítica pentecostal. Ignorá-la empobrece a compreensão das raízes do movimento e invisibiliza o papel decisivo das mulheres na construção da espiritualidade pentecostal.

Em suma, Woodworth-Etter não foi uma figura periférica, mas uma precursora. O fato de ter sido quase esquecida diz mais sobre os filtros ideológicos da historiografia do que sobre a real importância de seu legado.

 

Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio. Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: As raízes negras do pentecostalismo

FONTE: http://guiame.com.br/colunistas/ediudson-fontes/mary-b-woodworth-etter-uma-figura-quase-ignorada-pelo-pentecostalismo.html


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